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Blog - Compartilhando ideias

A ética do NÓS

  • Carolina Nascimento
  • 30 de abr. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 26 de mai. de 2020



Ao longo desses dias exclusivamente em casa, tenho pensando (ainda mais) sobre a vida, a realidade, revisitado meus valores e o que me brilha os olhos. Muito sensibilizada com os efeitos dessa pandemia a nível individual e também social, político e econômico, me vejo oscilante, questionando a realidade e tentando fazer conexões e sínteses possíveis. Numa dessas viagens sem destino final, pousei sobre a questão da ética e sua relação com uma vida que faça sentido de ser vivida.

Na tentativa incessante de colocar em perspectiva a relação entre dentro e fora; interno e externo; micro e macro; eu e outro, como unidade, tenho a humildade de dizer que sempre há algo que nos escapa. Por outro lado, é justamente meu olhar para essa totalidade complexa, contraditória e mutante que orienta meu lugar de fala: somos nós, seres humanos, que criamos as formas de nos relacionarmos, assim como nossos valores.


Dito isso, não compactuo com a ideia de uma explicação natural que remonte à essência humana e, por isso, uma ética universal, constante. Somos nós que criamos a ética a partir das nas nossas condições materiais de existência, ao longo do nosso processo histórico de desenvolvimento.

O mesmo podemos dizer para o funcionamento psíquico, nossa forma de estar no mundo, de pensar, expressar, desejar, lembrar, não é algo latente, à espera do momento certo de vir à tona. Pelo contrário, é um psiquismo que é estruturado a partir das relações que estabelecemos e das apropriações que vamos fazendo a partir do vivido.

O que eu quero dizer é que falar de ética é falar de valores compartilhados socialmente a partir da superação da esfera da particularidade (EU) para acessar a universalidade do gênero humano (NÓS).

A ênfase no interesse privado e no EU (ou Deus, rs) acima de tudo e de todos tem consequências desastrosas, basta olharmos para o lado e vermos a desigualdade, a exploração do homem pelo homem, a mercantilização das relações, o individualismo e o egoísmo. Essa forma de estar no mundo inviabiliza o nosso potencial humano de nos afetarmos e de nos reconhecermos como pessoas que estão num constante processo de vir a ser. Onde o EU soberano impera não há espaço para a fragilidade, reconhecimento do erro, para a superação da crise, e, logo, para o surgimento do novo.

Por outro lado, o NÓS seria a materialização do interesse coletivo. Eu só existo porque tem um outro que também existe e, se ele se transforma, eu também posso me transformar. Mais que isso, podemos nos transformar juntos! É a aqui que se abre espaço para falarmos em princípios caros à ética, como necessidades, valores, consciência e liberdade, pois é aqui que a contradição aparece e é também aqui que podemos criar condições para mudarmos essa realidade a partir do rompimento daquela condição que leva à degradação da vida humana.


Com isso posto, a pergunta que não quer calar se torna a seguinte: como conseguiremos ser éticos e caminharmos na direção do NÓS?


A minha aposta é, e continua sendo, de que precisamos nos unir, fazer revolução! Se algo não está bem, reclamemos. Se pessoas e instituições têm posturas moralizantes, tensionemos e denunciemos. Se nosso amigo, familiar, colega, chefe ou presidente fala besteira, levemos a ciência, a arte e a filosofia para refutá-lo e, principalmente, impedir que ele reproduza tais discursos. Se nossos direitos não estão assegurados, que nós os exijamos.Vamos produzir e compartilhar conhecimentos, vamos encontrar as brechas para produzirmos novas formas de sociabilidade humana. Vamos dar as mãos pra quem nos fortalece!

Não podemos assistir nossas mortes, enquanto pudermos lutar pelas nossas vidas!

 
 
 

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